O meu irmão é neste momento uma desilusão para
mim! Dizem que as pessoas não nos desiludem, mas isso são as outras pessoas -
não são aquelas com que crescemos, que as vimos começar a ser, que acompanhamos
e sabíamos ou imaginávamos mais ou menos com o que poderíamos contar.
O meu irmão era uma pessoa que
gostava imenso de se divertir, numa altura exageradamente, era muito amigo dos
seus amigos! cresceu obviamente e a sua vida teria de mudar todos sabíamos,
constitui família e tem uma bébé, o que não sabíamos era que passaria do
exagero da falta de responsabilidade ao excesso dela, chegando a achar que só
ele é que a tem!
A abordagem ao caso da minha mãe
é caricata no minímo, numa primeira instância quando soube da notícia
informou-se junto de não sei quem e disse que não era nada (achamos que estaria
a passar por uma fase de negação)! Manteve a sua distância porque para ele não
era muito significativo!
Uma das primeiras histórias (em
Dezembro) ocorre quando a minha mãe por já não ver a menina a algum tempo, lhe
telefona para saber se ele passaria por lá, ele diz-lhe que não, mas se
quisessem que aparecessem. Nessa noite envio-lhe uma mensagem a dizer-lhe que a
nossa mãe já anda com algum sofrimento e que espero que perceba o que estou a
dizer! Obviamente que os meus pais decidem ir, a neta é uma raio de luz e
preferem sofrer para ter a compensação. No entanto estou triste e quando chego
porque a minha cara não o disfarça, a namorada dele pergunta-me o que se passa
e eu digo-lhe calmamente, mas obviamente triste, que não acho normal estando a
minha mãe como está ela ter de se
deslocar para ir ver a neta! O meu irmão reaje violentamente acusa-me de
maltratar as pessoas na casa delas chega-me a expulsar de casa e diz que levará
ele os pais a casa! Choro imenso e tento telefonar à minha prima para me
acalmar, pelo insólito da situação!
No meio destas tempestades e, por
volta de meados de dezembro porque as coisas não estão a funcionar bem nos HUC
em Coimbra, consigo arranjar consulta para um cirurgião em Lisboa (ainda irei
postar), o meu irmão mostra desagrado pelo facto de o meu pai ficar sozinho.
Mas a ironia, é que quando levo a minha mãe para Lisboa, o meu pai ficou cerca
de uma semana sózinho, mas para salvaguardar que ele vai estando bem peço ao
meu namorado que passe por casa todos os dias. Para meu espanto descubro que o
meu irmão esteve de férias mas em nenhum momento tentou estar com o meu pai ou
o convidou para estar com ele!
Posteriormente metem-se as férias
do natal/ano novo, nesta altura as coisas atrasam-se ligeiramente, mas estão a
andar. Entretanto a minha mãe já colocou o catéter mas aguarda uma
ultasonografia (data 11 de janeiro)! Nestes meandros aparece uma convocatória
de Coimbra, a que a minha mãe vai, pois poderia ter possibilidade de voltar
para casa e ser mais depressa tratada. No entanto, não sente essa possibilidade
e continua por Lisboa. Posteriormente recebe outra convocatória de Coimbra dois
antes do início da quimio em Lisboa, falo com o meu irmão para esclarecer o que
é aquilo e não sei o que ele faz, mas desmarca a consulta/exames e remarca para
outro dia que coincide com a consulta de quimio em Lisboa. Fico obviamente
furiosa por ele saber das coisas e ter feito aquilo, ele acusa-me de a minha
mãe não estar a ser tratada por causa de mim porque a levei para Lisboa! Faz
pressão junto da minha mãe e por motivos vários a minha mãe opta por ir para
Coimbra !
Em Coimbra ocorre a primeira
reunião terapêutica à qual não vou e em que decidem que a minha mãe para
evitar o entupimento do intestino, lhe fazem uma colostomia. Posteriormente em
Fevereiro (quase final) inicia os tratamentos diários, excepto fim-de-semana,
de rádio (25+3 sessões) e quimioterapia. Nos tempos que se seguem vou eu ou o
meu pai com a minha mãe aos tratamentos, a partir de 11 de março a minha mãe
consegue lugar no “hotel do IPO” e minimiza as deslocações diárias.
Nestes momentos, perturbou-me o
facto de o meu irmão estando a trabalhar em Coimbra não prescindir de algum do
seu tempo livre para poder estar com os meus pais ou com a minha mãe. Percebo
perfeitamente que não queira pôr o trabalho de lado, mas tempos livres tipo a
hora do almoço ou fim do dia, poderiam ter sido sacrificados um bocadinho mais
do que foram. Muitas vezes o meu pai almoçou sózinho esperando pela minha mãe.
Numa altura o meu pai
telefonou-lhe dizendo-lhe que precisavam de mais apoio, mais carinho e que
achavam que ele não estava a ligar muito ao assunto, o meu irmão respondeu que
tinha a vida dele, o meu pai desligou-lhe o telemóvel. O meu irmão, penso eu
que arrependido voltou a ligar a minha mãe, que falou com ele dizendo-lhe que
gostaria de ver mais vezes a menina, disse-lhe que também precisavam que ele
apoiasse mais ao que acho que ele disse que se precisassem que dissessem....o
que não percebeu é que aquele telefonema era exactamente um “precisámos mais de
ti”.
... nos últimos tempos a única
vez em que me lembro de ver uma reacção mais forte de apoio e indignação foi
quando desmarcaram a operação no dia 5 de junho à minha mãe.
Saliento que não quero, nem nunca
quis que ele pusesse a família dele em causa, mas acho que existem maneiras de
conciliar. Tem a facilidade da proximidade geográfica, trabalha em Coimbra, mora
relativamente perto dos meus pais, caso não se quisesse deslocar poderia
telefonar mais vezes, poderia mostrar mais interesse por momentos importantes
(consultas, decisões terapêuticas), nomeadamente falar com os médicos (coisa
que remete para a minha mãe! Como se ela já não estivesse cansada de todo o
processo!)
Poderia continuar com mais
episódios, mais confrontos, para os meus alertas para o facto de ele não estar
a dar a atenção necessária aos meus pais, para o seu distanciamento, mas iria
cair tudo no mesmo... sinto-me triste pois este não coincide com o irmão que eu
pensava ter!
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